Cultuado cineasta alemão fala de projetos, de Glauber Rocha e aconselha diretores que realizem seus filmes, mesmo sem dinheiro
MATERIA E REPORTAGEM DE YALE GONTIJO - CORREIO BRAZILIENSE
WernerHerzog — Aos 68 anos, Werner Herzog é
um dos mais prolíficos realizadores do
planeta. O cineasta alemão planeja lançar
nove filmes este ano. Até agosto ele promete
finalizar cinco. Nos circuitos dos Estados
Unidos, já está em cartaz o documentário em 3D,
Caverna dos sonhos esquecidos, sobre o acesso exclusivo
que o cineasta teve à pinturas pré-históricas
em cavernas da França. A experiência foi quase
como reviver um desejo de infância quando o
garoto da Bavária ficou impressionado com a ilustração
da capa de um livro sobre paleontologia exposto
em uma vitrine.
Herzog passou recentemente algum tempo em
uma prisão do Texas entrevistando presidiários
condenados a pena de morte. Sobre a experiência, o
cineasta humanista tem um veredicto: “Não há dignidade
na morte dessas pessoas. Está tudo contido
dentro de um protocolo. Todos os passos já foram
previamente escritos. Na minha opinião nenhum
Estado em circunstância alguma poderia matar um
ser humano. Nem eutanásia, nem pena capital nem
genocídio”, discorreu sobre a proximidade de um
dos temas que considera mais fascinantes.
Durante palestra para os participantes do 3º
Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, no
SescVila Mariana, em São Paulo, Herzog falou sobre
vida e morte, a amizade com o cineasta brasileiro
Glauber Rocha, o desfecho da vida de Osama Bin
Laden e os próximos projetos.
Sobrou ainda uma alfinetada para o cineasta norueguês
Lars Von Trier, ao movimento Dogma 95 e
ao projeto Cinco obstruções, tocado pelo nórdico.
“Eu não faria um filme que se repete.Você jamais vai
ver um filme meu com continuação como um Rambo
ou Exterminador de 1 a 7. Eu não faria. Lars von
Trier criou um catálogo de comportamentos no cinema
que é inaceitável para mim. São como livros
de receita, pouco inspirados. Embora alguns filmes
sejam interessantes”, resumiu.
Talvez um dos realizadores mais internacionais
do cinema contemporâneo tendo feito filmes em
diversos países, ele nunca se sentiu desenraizado:
“A minha cultura nunca sai de mim. Sou um cineasta
alemão, da Bávaria. Fitzcarraldo não é um filme
sobre a América do Sul. Assim como Vício frenético
não é um filme sobre os Estados Unidos. Meus filmes
serão sempre bávaros, independentemente de
onde os faça”, resumiu.
GLAUBER ROCHA
Convivi com ele por um
mês nos Estados Unidos.
Glauber era o epicentro da
cultura cinematográfica. Fiquei
no quarto ao lado dele.
Ele falava frequentemente em
viajar a pé, escrever e ler. Meu
amor pela Bahia veio por meio
dele. Era muito desorganizado
e havia se esquecido do dia
em que ia embora. Por isso,
ele não arrumou as malas. Na
saída, saiu, pegou os manuscritos,
estavam envolvidos em
bolos de papel. Pelos menos
150 páginas que ele escreveu
foram recuperadas por mim.
Sinto muitas saudades dele.
Os filmes são eternos. A alma
dele é alma do Brasil. Outro
que talvez seja a alma do Brasil
é o Garrincha.
CORREDOR DA MORTE
Sempre fui fascinado pelo
fato de não saber como morreremos.
Mas as pessoas no corredor
da morte sabem quando
e onde isso vai acontecer. O filme
não lida diretamente com a
questão da pena capital em si.
Não sou advogado da pena capital.
Não tenho uma opinião.
Eu sou alemão, e na Alemanha
milhares de pessoas foram
mortas sistematicamente durante
o regime nazista. Nenhum
país poderia ser habilitado
a matar pessoas em nenhuma
circunstância. Porém, eu
não tenho um argumento. É só
uma história.
CINEMA BRASILEIRO
O problema é que eu não
vejo muitos filmes. Vejo dois
ou três por ano. Ano passado vi uns 20 porque
participei do júri do Festival de Berlim. Vi alguns
do Walter Salles e muito pouco dos novos filmes
brasileiros. Acredito que a cinematografia brasileira
esteja viva. As produções são mais baratas
hoje em dia. Com ferramentas simples e câmeras
que não custam muito dá para editar no lap
top. Meu conselho para quem reclama que não
tem financiamento é que trabalhe. Dá para trabalhar
e fazer seus filmes. Hoje em dia é possível.
CADEADOS E CARIMBOS
No começo da minha carreira eu roubei uma
câmera e fiz 11 filmes com ela. Eu posso ensinar
como roubar e quebrar cadeados ou falsificar documentos.
Podem rir. É verdade. Num filme como
Fitzcarraldo tínhamos de atravessar o rio com um
barco enorme passando por vários países e um
monte de postos do Exército. Eu falsifiquei um
documento assinado pela chancelaria. O maior
carimbo era em alemão e estava escrito: “Para
quem quiser comprar essa foto, peça ao fotógrafo”.
A assinatura do presidente foi feita por mim,
muito floreada, claro. Façam o que tem de fazer.
Se necessário roubem uma câmera e falsifiquem
documentos. Façam o que for necessário.
PLANEJAMENTO
Eu não planejo meus filmes. Nunca olho as listas
de best sellers do New York Times. Eu não vejo o
que os colegas fazem. Eu sou convidado pelos filmes.
Eles vêm até mim no meio da noite. Vi uma
retrospectiva dos meus filmes nos anos 1970, no
México, e tive a impressão de que todos eles têm algo
em comum. Algo reconhecível entre eles, em
que me reconheço.
O ERRO DO SÉCULO 20
Não quero entrar no negócio da autoanálise.
Eu não olho para o meu umbigo. A psicanálise é o
maior erro do século 20. Se você ilumina a sua casa
com luz resplandecente até o último cantinho,
não dá para habitar essa casa. Com a cabeça das
pessoas é a mesma coisa. Vi mulheres amáveis
com quem adoraria ter um caso e não conseguia
porque elas estavam nessa coisa de psicanálise. É
tão trágico como a inquisição espanhola.
INIMIGO ÍNTIMO
Minha convivência com Klaus Kinski foi intensa.
Fiz 60 filmes até hoje e só cinco com ele. Já
ele fez 210 filmes mais ou menos. No entanto, eu
sempre soube que ele era extraordinário. Mais
do que qualquer coisa que se veja na tela. Mas
ele era o ser mais difícil do planeta. De alguma
forma aprendi a domesticar a fera selvagem e
deixar a insanidade dele produtiva na tela. Claro,
havia momentos de profunda intimidade. Em
Fitzcarraldo, ele gritava com até 1.000 nativos
que trabalhavam como figurantes. Eles resolvem
conflitos de forma diferente. Uma vez um chefe
me disse que eles não tinham medo do homem
que gritava, mas tinham medo do meu silêncio.
Outra vez, ele me perguntou se queria que o matassem
para mim. Expliquei que não. Ainda estava
na hora da filmagem.
REDES SOCIAIS
Eu não estou usando nenhuma delas. Quando
eu quero encontrar amigos eu os convido para
irem até a minha casa. Quando eu e Nicolas Cage
fomos fazer Vício frenético, ele foi até minha casa
e comeu um dos meus filés. As redes são um instrumento
incrível, mas não contribuem para o
discurso humano. Vemos muito de não realidade
nesses discursos. Por outro lado, existe o valor
democrático das mídias sociais. Um dos meus
melhores amigos mora na Síria. Ele perguntou,
pelo Twitter, o que estava acontecendo e alguém
do outro lado do mundo o aconselhou a não sair
de casa porque haviam atiradores no telhado
próximo. A mesma coisa aconteceu em outros
países com guerras civis recentemente.
HUMANOS E BICHOS
Adoro dirigir animais assim como seres humanos.
Também é possível dirigir paisagens, o que é
facilmente notado em filmes meus. Nós temos
bastante papéis para animais. Em Caverna dos
sonhos esquecidos há um epílogo no final sobre
crocodilos albinos modificados por energia nuclear.
Animais têm a ver com poesia e muitas
vezes eles têm um papel muito
importante nos filmes. Ninguém
é tão bom em dirigir
animais como eu.
ALIANÇA FRANCESA
Para a filmagem de Caverna
dos sonhos esquecidos não
houve nenhum pacto, como
dizem por aí. Os franceses são
muito patrimoniais no que diz
respeito à sua cultura. Minha
proposta foi trabalhar para
eles no Ministério da Cultura
por um euro. Me senti privilegiado
por trabalhar nas cavernas.
Quando eu era pequeno
tinha fascinação pelas pinturas
em caverna. Tive muita
sorte de poder filmar em uma.
FUTURO EM 3D
Não acredito que o futuro
do cinema será somente filmes
em 3D. As pessoas costumam
dizer que nós tivemos a TV em
preto e branco e agora todas
são coloridas, então logo todas
serão 3D. Não acredito que vai
acontecer assim. Na nossa vida
real não enxergamos assim.
Meu olho dominante enxerga
2D. Não acho que seja importante
para mim ver em 3D. Não
é a maneira mais legal de ver as
coisas. Outro argumento é que
quando você vê um filme como
Avatar — um longa muito
bem-sucedido — não há nada
além daqueles fogos de artifício.
O efeito é explanatório.
No entanto, o filme que fiz na
caverna precisou de 3D, pois
a parede da caverna tem muitas
tramas como os desenhos
do cavalo, do bisão, do mamute.
São histórias separadas.
Eu fui o único que filmou lá, então quis levar
a experiência para o público. Não me vejo fazendo
nenhum outro filme com essa tecnologia.
AFETO
A afeição é sem dúvida um elemento importante
no que eu faço. Jamais poderia fazer um filme
sobre alguém que eu não gostasse. Embora os crimes
fossem monstruosos em Death row (corredor
da morte), eu não via monstros. Minha afeição às
vezes é ilimitada. Só posso fazer filmes com pessoas
quando o meu coração e a minha mente estão
dentro daquelas pessoas.
AS MULHERES
Eu adoro e respeito as mulheres. Não seríamos
nada sem elas. Nós praticamente não temos protagonistas
femininos nos filmes. Tenho dois projetos
de longas com mulheres como protagonistas.
Mas por que não fiz antes? Não sei. Antes
nunca havia me ocorrido que iria fazer filmes sobre
paleontologia.
OBAMA E BIN LADEN
As fotos do corpo de Osama não devem ser
publicadas. Não devemos mostrar essas coisas
como troféus. Há uma certa dignidade nos cadáveres.
Eles respeitaram as cerimônias muçulmanas
e isso foi muito nobre. Obama vem tentando
reconciliar os EUA com o Islã. O povo não quer.
Os americanos são histéricos com relação ao Islã.
Mas há tanta dignididade na vida do muçulmano.
É claro que o assunto não é tendência atualmente
no cinema. Isso para mim não importa. Eu
vou fazer um filme sobre isso mesmo assim.
Danilo Verpa/Folhapress
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